31/1/2010 - 21h25m PARABOLA DOS POTESMARIA DE LOURDES LIMA DA FONSECA - Haviam dois grandes e belos potes que, num canto do quintal falavam entre si.
Dizia um:
- Ah, que tédio! Que vida! Viver aqui, exposto a tudo, sol, vento, chuva, calor... Por mais que eu me proteja, como sobreviverei? Aqui estou, perfeitamente tampado, lacrado para proteger-me e ainda assim me sinto ameaçado, vazio. Não vejo graça em estar aqui!
Tranqüilamente, retrucou o outro pote:
- Veja, eu me encontro aqui, aberto, nada me protege a boca, ou melhor, o meu interior. Cai a chuva, eu a recebo. Vem o vento, eu o sinto bem dentro de mim. Vem o sol e me leva as gotinhas que retornam para o céu, e nem por isso me sinto ameaçado...
- Ora, grandes vantagens! Seu interior não guarda mais a cor original como o meu. Sua cor é cada vez mais diferente. Você não é mais o mesmo!
- Sim, e isso me alegra. O meu interior se transforma a cada dia, à medida em que me deixo habitar pelas novas coisas. Posso sentir cada criatura que me visita e cada uma delas deixa algo de si para mim, assim como deixo para elas, pouco a pouco, a minha cor.
- É, mas você não tem mais paz. A todo instante você é solicitado, carregam você todo o dia para levar água, ao passo que eu permaneço quietinho no meu lugar. Ninguém me incomoda. Quando se aproximam, já sei que é a você que eles querem.
- Sim. Se me solicitam é porque tenho algo a dar, e o que eu dôo não é diferente do que você pode dar. Deixo-me encher pela água que cai da chuva, tanto sobre mim, quanto sobre você. Encho-me até transbordar. Outros seres precisam desta água e eu os sirvo. Me esvazio e me deixo encher de novo, assim, minha vida é um constante dar e receber. Enquanto isso, me desinstalo, saio do meu pequeno mundo e vou ao encontro de outros mundos. Cada ser me faz perceber ainda mais o pote que sou.
- Não sei, não. Se continuares assim, brevemente serás um pote quebrado, gasto, e então, de que adiantará tudo isso?
- Creio que se me desgasto a cada dia, é para ser possível levar vida a outros seres. Vejo que o mais importante não é ser um pote intacto, tal como fui criado, mas um pote de valor como estou me tornando. Se vou durar pouco tempo, não importa. Se o pouco que eu viver tiver sentido, me trouxer alegrias e me fizer sentir cada vez mais o que é ser pote, isto me basta...
Já era tarde, o sol já havia se escondido, quando os dois pararam de falar. O pote aberto, sentindo-se cansado, logo adormeceu, o que não foi possível para o outro pote. Ele não conseguia dormir, pois algumas palavras ditas pelo companheiro lhe vinham à mente e lhe tiravam a paz:
transformar o interior... paz.... esvaziar-se... deixar-se encher... deixar algo de si
desinstalar-se... pequeno mundo... ser feliz...
Na manhã seguinte, um pote acordava, o outro dormia, porque fora grande o seu esforço durante a noite para retirar a tampa que o acompanhava a tanto tempo.
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