Urbes et rurale - Tio Ze Gue e Betinho
|
"Urbes et Rurale" - Urbano e RuralMaria Vitória Ramos
O vi naquele ponto de ônibus e fui lá. Gosto demais dele e sempre que nos encontramos a prosa se estende... A sabedoria que emana não se mensura. Chama-me de “cisquinho”. Não me importo. No sentido de pequena que incomoda, entendo. Ele justifica que e por que não paro. Na mesma hora que estou num lugar já estou noutro. O dia de outubro estava quente e o sol foi apertando e nos encostamos-se ao muro, numa sombra. Foram chegando outras pessoas e começamos a observar... Caixas e pacotes de compras. Não me lembro se era o quinto ou o sexto dia útil do mês. Ele riu e disse que ali estava o dinheiro de muitas aposentadorias, porque dinheiro de leite não volta pra roça em nada que não seja farelo de soja ou remédios de vaca... E os outros “ordenados” da moçada jovem, nem sempre são pras compras da casa, me chamou a atenção para uns pacotes na sua compra, onde se via, arroz, feijão, laranja, abóbora, moranga, batata, açúcar, sal,
materiais de limpeza, farelo pros pintinhos, sabonete, e ate duas mandiocas já descascadas e partidas, prontas para o “quibebe”...e numa outra sacolinha umas caixas de remédio para a pressão, uns analgésicos. Entre saudoso e solene olhou meio perdido pros lados lá da sua roça e parece que rezava em meio tom... “Há uns tempos atrás...num era assim não! Eu vinha na cidade, só pra comprar o querosene, o sal, as vezes um macarrão. Açúcar num precisava, a gente tinha rapadura. Café, era colhido, torrado e moído lá! Plantava milho, fazia fubá... engordava porco, não comprava carne, nem óleo. A patroa fazia sabão. Ninguém tinha problema de pressão alta, por que todo mundo trabalhava muito e acho que gastava mais as gorduras...Agora, mudou tudo... (respirou fundo. Tirou o chapéu da cabeça, coçou atrás da orelha, passou a mão no cabelo, colocou de novo o chapéu mais para baixo, tapando um pouco os olhos...)Lá na roça, ficou
pouca gente. Ninguém mais anima a plantar o arroz. As leis não “deixa” mais plantar na vargem. Os pequenos não da conta de plantar milho, fazer fubá, colher feijão...acabou ficando só os aposentados, que gosta mesmo da roça, e inda teima em resistir. Hoje eu venho na cidade, to levando de um tudo. Mas escutei um “zoado” ai, que o governo ta comprando as coisas que o povo planta. Eu animo. Se tiver certeza de vender, eu planto...duas quadras de abóbora da mais que milho, meus filho que ta aqui também volta pra roça e planta...A gente gosta de lá. Eu não queria ver o que eu to vendo!Vê ai, mais umas caixas cheia de coisa daqui pra lá... O motorista falou que do mês que vem em diante vai cobrar pelos volumes também. “Nois tamo frito!...”
O ônibus veio chegando e encostou. Fez-se uma fila, e o bagageiro foi enchendo. Aquela gente foi se acomodando e pude ver nos rostos perto da janela, a grandeza de uma cultura que muda em função das conjunturas, mas não perde a essência.
Resultado recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, revela que mesmo plantando em áreas menores, e a Agricultura Familiar que mantem o povo brasileiro de pe, literalmente. Empregando 75% da mão de obra no campo, e responsável pela segurança alimentar dos brasileiros, produzindo 70% de feijão, 87% da mandioca, 58% do leite e 46% do milho.
E por isso que desde 1971, nas exortações do Papa Paulo VI, na “Octogésima Adveniens” ele chama a atenção para o compromisso de transformação social que somos responsáveis. A pesquisa do IBGE mostra que as políticas publicas e sociais, as pastorais de setores, as missões rurais e movimentos comunitários, as atuações paroquiais ditas progressistas, avançam cumprindo seu papel, ainda que com dificuldades, e desafios homéricos. Paulo VI continua vivo! Em tempos de mudanças e crises, faz-se necessário o reforço das bases, e o caminho de volta, para entender a ida...
Licenciada no Curso de História – Instituto Superior de Educação - UNIFOR-FORMIGA/MG Cooperadora do Griootzen - Agente de Mobilizaçao Rural
|